A banalização do cotidiano: violência e fome

Sem vacina no braço, sem comida no prato, em estado de luto. Perdemos 422 mil brasileiras e brasileiros para a Covid-19. Somado ainda à indignação pela violência policial crescente, que no dia 6 de maio tirou a vida de 27 jovens da comunidade do Jacarezinho (RJ) e de um policial. Além de atos de violência como o ocorrido no dia 3 de maio, quando  madeireiros invadiram o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém (PA).

É neste cenário de guerra e de criminalização de comunidades empobrecidas, organizações da sociedade civil e movimentos sociais, que a população brasileira tenta superar os dramas que não precisaria enfrentar se não fossem as muitas negligências e irresponsabilidades em todas as esferas da gestão pública. Enquanto resposta desde as forças de resistência, ainda não conseguimos romper o estado de letargia em que se encontra a sociedade brasileira.

Apesar de o país ter se tornado um caso emblemático de desgoverno e arbitrariedades durante a pandemia, não estamos sozinhos. Basta olhar para países como Colômbia, Honduras  e Haiti para encontrarmos muitas semelhanças, a começar pelo cenário de militarização e violência que se agrava.

Vejamos um breve cenário conjuntural no continente. Na Colômbia 42,5% da população está vivendo em condição de pobreza e neste cenário o anúncio do aumento de impostos levou a população às ruas, inflamou o país. 

As mobilizações sociais que começaram no dia 28 de abril continuaram neste fim de semana,  exigindo a queda da reforma tributária, até o fim do fechamento desta análise, já deixaram pelo menos 27 mortos pelo país.

Por outro lado, países da região como Cuba, Bolívia, El Salvador, Nicarágua e Venezuela, são considerados como inimigos, fracassados, exemplos do que não fazer, especialmente quando o tema é política econômica e social. Não chegou a hora de percebermos que juntos esses países sofrem, na verdade, uma ofensiva articulada?  

Até quando o Brasil e suas forças de base seguirão desarticuladas, intimidadas, com leituras amenas da realidade que nos engole e mata?  É preciso admitir que, na verdade, a burguesia não tem moral, nem ética, tanto é que continua apoiando o genocida no comando do país.

Essa parcela da população nunca perde, só ganha dinheiro. Apesar da pandemia, 2020 foi um ano recorde para os mais ricos do mundo, com um aumento de US$ 5 trilhões (ou R$ 28 trilhões) em riqueza e um número sem precedentes de novos bilionários.

Estudo do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) revela que mesmo diante da pandemia os cinco maiores bancos do país lucraram R$ 79,3 bilhões, com aceleração da digitalização e fechamento de postos de trabalho e agências. Isso “em um ano de crise sanitária, econômica e social”, destaca o Dieese.

Outro setor que não para de crescer, mesmo diante da pandemia, é o agronegócio. O Brasil foi um dos poucos países a aumentar as exportações nesse período. Grãos, carnes, produtos florestais, café e açúcar representam a maior parte desse comércio lá fora, principalmente para os países asiáticos liderados pela China.

Enquanto seguimos exportando alimentos para 170 países, por aqui, o que se constata é a alta dos preços nos itens da cesta básica e o aumento da quantidade de panelas e pratos vazios. Como aceitar que um país com tamanho potencial produtivo não tenha políticas públicas capazes de garantir que todas as pessoas tenham acesso ao direito humano básico da alimentação? Como não questionar o fato de termos ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres?

A falta de vacina tem causado milhares de mortes precoces. Mas tem outro ponto importante nessa política de ineficiência para o processo de imunização: a falta de vacina tem inviabilizado mobilizações nas ruas.  O povo e as organizações sociais chamaram imediatamente vários atos ao dia seguinte da Chacina do Jacarezinho.  É preciso seguir o caminho de quem já está nas ruas.

Não chegou a hora de uma grande mobilização? Unir forças para denunciar todas as violações de direitos humanos, convocar especialmente a população já imunizada, seguindo as orientações do uso de máscara, distanciamento adequado e álcool em gel?

Nosso planalto é a planície! Desde os territórios, bairros, comunidades, municípios, etc. Desde baixo, desde o coração e a cabeça, pensar, sentir e agir para sairmos desse buraco em que nos encontramos.  

A vida acima da dívida e do lucro!

Somos Credores!

                                                      Rede Jubileu Sul Brasil, 10 de Maio de  2021

Fuente: Jubileu Sul Brasil

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