Ação Mulheres por reparação das dívidas sociais realiza intercâmbio nacional

Tecendo redes e teias da vida e da luta, equipes compartilharam avanços, desafios e planejaram o próximo período

Por Flaviana Serafim I Jubileu Sul Brasil

O Intercâmbio Nacional da “Ação Mulheres por reparação das dívidas sociais” foi realizado de 28 a 30 de novembro, no Ipiranga, zona sul da capital paulista, reunindo a equipe dos territórios de todas as regiões do país – Belo Horizonte, Croatá, Fortaleza, Macaé, Manaus, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Ao longo dos três dias de atividades e debates intensos, foi realizado o monitoramento e avaliação da ação neste ano e o planejamento para 2023.

Após a acolhida de participantes, pela articuladora de Fortaleza, Nenzinha Ferreira, e por Alessandra Miranda, assessora técnica nacional da ação, a mística inicial foi conduzida por Raimunda Oliveira e Josilene Passos, respectivamente articuladora e assessora técnica em Salvador, numa dinâmica com retalhos de chita mostrando a importância da atuação em rede e a diversidade dos territórios.

O primeiro dia prosseguiu com uma análise de conjuntura coletiva, conduzida pela economista e educadora popular Sandra Quintela, articuladora da Rede Jubileu Sul Brasil (JSB), e por Marcelo Edmundo, da Central de Movimentos Populares (CMP),  a partir da análise da Rede, refletindo sobre as mobilizações populares e a participação social nas lutas pelo direito à cidade, à moradia e por políticas habitacionais no próximo governo.

“Ano passado pagamos R$ 1,36 trilhão de juros e amortização da dívida pública, 41% a mais que pagamos em 2020 e, mesmo assim, esse endividamento cresceu R$ 700 bilhões. É um total que representa mais de 50% do orçamento público só para o sistema da dívida”, pontuou Sandra. Ela chamou atenção para o fato de o Teto de Gastos congelar recursos para políticas públicas essenciais, contudo não congelar gastos para pagamento da dívida “mas ninguém quer falar sobre isso”, completa.

Os acúmulos da Rede sobre a reparação das dívidas, com ênfase nas mulheres, pautaram o momento formativo com a advogada agrarista e feminista Magnólia Said, da coordenação do JSB.

Magnólia ressaltou que a questão da dívida é palavra de ordem no Jubileu Sul Brasil “porque sempre sustentou a política e a incidência da Rede desde o nascimento. Não foi à toa, mas por entendermos que esse sistema é uma espinha dorsal, é a base de sustentação do sistema de capital — o dinheiro, o mercado, as formas de produção de mercadoria e a dominação social”. 

Entre outros, ela propôs avanços no diálogo com o Congresso sobre os empréstimos que vêm sendo feitos, analisar essa dívida e fazer com que parlamentares proponham uma auditoria dessas dívidas.

A relação e conexões entre os elementos trazidos na análise de conjuntura e os acúmulos da Rede sobre a reparação das dívidas foram debatidos pelo coletivo, concluindo a primeira manhã de reflexões. Foi apontada a necessidade de aprofundar e avançar na formação sobre os impactos do sistema de endividamento na vida cotidiana e a necessidade de reparações, com os conteúdos e metodologias da Rede multiplicados nas comunidades.

Na questão do direito à moradia, à cidade e outros direitos, pautar o bem viver que seria possível se os recursos tivessem outro destino, em prol da população em vez do pagamento de dívidas, pois tempo não é dinheiro, “tempo é vida”, como disse Sandra Quintela parafraseando o economista Marcos Arruda, do Instituto PACS.

Roda de abertura do intercâmbio. Fotos: Flaviana Serafim/Jubileu Sul Brasil

Confira o álbum com imagens do intercâmbio clicando aqui ou no final do texto.

Avanços, desafios, aprendizados

O período da tarde foi o de apresentações dos territórios. A forte chuva na capital paulista interrompeu o fornecimento elétrico na região do Ipiranga e, após algumas horas de espera, as apresentações começaram mesmo sem o restabelecimento da eletricidade.

Apesar do percalço, as equipes fizeram uma roda sob a luz de emergência e partilharam as principais ações realizadas, retratam o território e sua diversidade, abordaram as principais dificuldades, acertos e aprendizados com o processo. 

Entre os principais avanços estão: maior envolvimento e participação das mulheres que estão inseridas desde o início da ação; a periodicidade de encontros e de uma rotina nos territórios; identificação das demandas das moradoras nas diversas áreas das políticas públicas e das esferas mais subjetivas da vida; a incidência com parlamentares e nas audiências públicas; o reconhecimento da relevância da atuação da equipe do JSB na comunidade.

O envolvimento das crianças, adolescentes e jovens, a criação de espaços de conhecimentos com as mulheres, e o sentimento de aliança, apoio e sororidade entre as moradoras e delas com a equipe também foram destacados, além da relevância das cartografias sociais.

Avanços ainda quanto às juventudes, comunicação popular, parcerias locais e a todo um acúmulo metodológico que vêm sendo construído ao longo do processo.  Entre as fortalezas dialogadas, a necessidade de aprofundar o debate sobre a questão da justiça reprodutiva e violência contra as mulheres.

O racismo estrutural e o machismo acentuado, os atravessamentos políticos e o bolsonarismo nas comunidades, o acesso precário ao transporte e a ausência do poder público nos territórios estão entre os principais desafios apontados.

Apresentação dos balanços dos territórios

Balanço e planejamento

“Terra meu corpo, água meu sangue, ar meu sopro, fogo meu espírito”. Com a canção indígena aos elementos, a articuladora Marcela Vieira e sistematizadora Kelly Barbosa, de Manaus, abriram os trabalhos com a mística do segundo dia.

A retrospectiva do dia anterior foi conduzida pela articuladora de Salvador, Raimunda Oliveira, seguida da apresentação do balanço da comunicação pelas assessoras Flaviana Serafim e Jucelene Rocha, e das avaliações territoriais sistematizadas, pela assessora pedagógica Joseanair Hermes, a Josi.

Os pontos em comum nos acertos e dificuldades e a dimensão nacional da ação foram dialogadas em trabalhos de grupo e compartilhados em plenária, e ainda o resultado do monitoramento de indicadores do período. No período da tarde, o foco foi o planejamento para 2023, com realização de trabalho em grupo.

Diálogo a partir das avaliações sistematizadas

(In)dependência e dívida

As dívidas sociais acumuladas ao longo do processo histórico no bicentenário da Independência, e a relevância das lutas e incidência por um projeto popular que promova as reparações urgentes e necessárias a essas dívidas, pautaram os debates no lançamento do livro “Brasil, 200 anos de (in)dependência e dívida”, em evento presencial na cidade de São Paulo, na noite da terça-feira (29), que lotou o Armazém do Campo, região central da capital paulista.

O lançamento teve roda de conversa com alguns dos autores, que comentaram brevemente as reflexões trazidas em seus artigos – 13 ao todo, que trazem uma leitura crítica da independência ainda a se realizar. Participaram Alessandra Miranda, Alfredo J. Gonçalves, Aline Miglioli, Magnólia Said, Rosilene Wansetto e a organizadora, economista Sandra Quintela, articuladora nacional do Jubileu Sul Brasil.

A atividade também foi um momento de confraternização entre as equipes da “Ação Mulheres por reparação das dívidas sociais”, partilhando um baião-de-dois orgânico com produtos da reforma agrária nas versões com carne e vegana com frutos do cerrado. A intervenção cultural com a violeira Iná Maria e Cícero do Crato marcaram o encerramento com música raiz, das modas de viola ao forró.

Conheça o livro e o calendário de lançamentos

Confira no Flickr o álbum com outras imagens do lançamento na capital paulista.

Avaliação e propostas para 2023

Assim como os retalhos de chita construíram a rede de apoio e diversidade dos territórios no primeiro dia, o terceiro dia foi de tecer a rede da vida e da luta, na mística realizada pela articuladora Gorete Gama, do Rio de Janeiro, e por Nenzinha Ferreira, de Fortaleza, envolvendo a todas e todos no entrelaçar da dança pau-de-fitas multicoloridas.

Gorete também recitou a poesia “Escutar e contribuir”, escrita por Elisabeth Silva, uma das lideranças do Conselho de Movimentos Populares (CMP) engajadas na ação em Fortaleza, no Conjunto Palmeiras. O poema reflete os múltiplos papéis das mulheres, sua atuação política, perseverante e crítica porque “(…) A mulher cria a cidade com olhar na solidariedade (…)”.

Dança do pau-de-fitas na mística de encerramento

A retrospectiva do dia anterior e a condução dos trabalhos do terceiro e último dia foram feitas pela articuladora Jamile Mallet, de Porto Alegre, e pela articuladora nacional Sandra Quintela.

Plano de atuação específico para cada território, criar atividades que unam mulheres e crianças, mapear mais parceiros locais, fortalecer a geração de renda, priorizar temas de interesse para formação nos territórios, aquisição de equipamentos e intercâmbio entre os territórios são algumas das propostas encaminhadas para o próximo ano.

No último dia também foram apresentados o Plano de Resposta, os informes administrativos e financeiros, além de em grupo seguido de plenária na qual foram compartilhadas as propostas de acordo para 2023. Ao final, Alessandra Miranda apresentou a carta do encontro, concluído com uma avaliação coletiva do intercâmbio.

As iniciativas da Ação Mulheres por reparação das dívidas sociais contam com apoio do Ministério das Relações Exteriores Alemão, que garantiu ao Instituto de Relações Exteriores (IFA) recursos para implementação do Programa de Financiamentos Zivik (Zivik Funding Program).

As ações também integram o processo de fortalecimento da Rede Jubileu Sul Brasil e das suas organizações membro, contando ainda com apoios da Cafod, DKA, e cofinanciamento da União Europeia.

O conteúdo desta publicação é de responsabilidade exclusiva da Rede Jubileu Sul Brasil. Não necessariamente representa o ponto de vista dos apoiadores, financiadores e co-financiadores.

 

Fuente: Rede Jubileu Sul Brasil

 

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