20 anos depois: o Plebiscito da Dívida, as suas sementes e os seus frutos

Colagem com fotos e palavras recortas de jornais e revistas. Ao fundo, um homem vota durante um plebiscito. No primeiro plano, a frase: “20 anos Plebiscito da Dívida Externa

 

“Não podemos permitir que a atual e as novas gerações percam a memória do que aconteceu, aquela memória que é garantia e estímulo para construir um futuro mais justo e fraterno (…) Não me refiro só à memória dos horrores, mas também à recordação daqueles que, no meio dum contexto envenenado e corrupto, foram capazes de recuperar a dignidade e, com pequenos ou grandes gestos, optaram pela solidariedade, o perdão, a fraternidade. É muito salutar fazer memória do bem”.

As frases que abrem esse texto estão presentes na Fratelli Tutti, a mais recente encíclica do Papa Francisco. Versando sobre a fraternidade e a amizade social, a encíclica foi divulgada em 4 de outubro deste ano, dia de São Francisco de Assis, a quem é atribuído o ensinamento: “comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível e, de repente, você estará fazendo o impossível”.

É justamente no sentido de fazer a memória do bem, de que nos fala o papa latinoamericano, que assume relevância relembrar uma experiência popular – que parecia impossível – feita há 20 anos, mas que teve início antes e permanece ecoando ainda hoje. Esse é o objetivo principal da série informativa “Comemoração e Memória”, que desde o início de setembro celebrou a memória e a história do Plebiscito Popular sobre a Dívida Externa, realizado em todo o Brasil entre os dias 2 e 7 de setembro de 2000.

As sementes do caminho

Mas como dito anteriormente, essa história só foi possível pelos seus antecedentes. E um marco determinante para o Plebiscito foi a 3ª Semana Social Brasileira, entre os anos de 1997 e 1999. Com o tema “Resgate das Dívidas Sociais: Justiça e Solidariedade na Construção de uma Sociedade Democrática”, a 3ª SSB – ação da Igreja Católica, que se caracterizou pela pluralidade e pelo alcance nacional – buscou evidenciar que os recursos destinados aos credores externos eram subtraídos de áreas essenciais para a promoção da dignidade humana.

Em articulação com a 3ª SSB, mas com uma composição ainda mais ampla, aconteceu entre 21 e 23 de julho de 1988, em Brasília, o Simpósio Nacional sobre a Dívida Externa, em que militantes sociais e especialistas da América Latina debateram a problemática do endividamento público, constatando que era urgente romper com as estruturas de dominação que destruíam a economia e a soberania nacionais.

Foi nesse Simpósio que se aprovou a organização do Tribunal da Dívida Externa, que ocorreu dos dias 26 a 28 de abril de 1999, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. Ao final de três dias de intensos debates, o veredito das 1200 pessoas presentes foi: “adívida externa brasileira, por ter sido constituída fora dos marcos legais nacionais e internacionais, e sem consulta à sociedade, por ter favorecido quase exclusivamente as elites em detrimento da maioria da população, e por ferir a soberania nacional, é injusta e insustentável ética, jurídica e politicamente”.

Como expressão de que o tema da dívida se demonstrava um problema não apenas brasileiro, o Tribunal se integrava à Campanha do Jubileu 2000, lançada em 1998 por uma coalizão internacional de igrejas e grupos de ativistas, em favor do cancelamento da dívida dos países de baixa renda e mais endividados.

Os frutos que são também sementes

Foi nesse contexto histórico de mobilização nacional e internacional que produziu-se,  na Semana da Pátria (que deveria chamar-se Mátria, dado o papel protagonista das mulheres para o nosso desenvolvimento), um Plebiscito que teve a participação de mais de seis milhões de brasileiras e brasileiros, à época algo equivalente a 5,16% do eleitorado do país.

Durante aqueles dias, mais de 90% das pessoas que se manifestaram nas 50 mil urnas instaladas por 100 mil voluntários em 3 mil municípios do país disseram: não ao pagamento da dívida externa, disseram não à manutenção do acordo firmado pelo governo federal com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e disseram não ao comprometimento do orçamento público com o pagamento da dívida.

Demonstrando a conexão entre diversas mobilizações populares, o último dia de votações do Plebiscito foi a data da 6ª edição do Grito dos/as Excluídos/as, que teve o tema “Progresso e Vida, Pátria sem Dívida$” e problematizou o sistema de dependência financeira que subjugava o Brasil e demais nações empobrecidas.

Dois anos depois, entre 1 e 7 de setembro de 2002, mais de 10 milhões de cidadãs e cidadãos em 3.894 municípios disseram: não à adesão do Brasil à Área de Livre-Comércio das Américas (ALCA); não à permanência do governo nas negociações para a formação do bloco econômico; e não à cessão da base de Alcântara, no Maranhão, aos Estados Unidos.

Assim como o Plebiscito de 2000, o último dia de votações coincidiu com a realização do Grito dos/as Excluídos, naquela ocasião em sua oitava edição. Com o lema “Soberania não se negocia”, o Grito alertou que a ALCA era uma forma de negociar as riquezas dos países das Américas aos interesses do imperialismo estadunidense.

Meses antes do Plebiscito da ALCA e da 8ª edição do Grito, em janeiro de 2002, no âmbito do II Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, o Tribunal Internacional da Dívida – formado por militantes e intelectuais de diferentes países do Sul Global – considerou ilegítima, injusta e insustentável ética, jurídica e politicamente a dívida externa dos países do Sul, apontando os bancos, as corporações transnacionais, os governos dos Norte, o FMI, o Banco Mundial e outras instituições financeiras internacionais como promotores das medidas que subalternizavam as nações empobrecidas.

Reivindicando um Brasil a serviço dos seus povos e com o tema “Mutirão por um novo Brasil: articulação das forças sociais para a construção do Brasil que nós queremos”, a 4ª Semana Social Brasileira, entre 2004 e 2006, propunha a elaboração de um projeto alternativo de sociedade solidária, sustentável, economicamente justa, politicamente democrática e culturalmente plural.

Na efervescência das mobilizações da 4ª SSB que mais de oito mil integrantes de dezenas de organizações e movimentos sociais encontraram-se em Brasília, em outubro de 2005, para a 1ª Assembleia Popular, que objetivou convergir ideias e propostas para a formulação de um Projeto Popular para o Brasil, sendo uma das sínteses o texto “O Brasil que queremos. Assembleia Popular: Mutirão por um novo Brasil”.

Dois anos depois, na semana do 7 de setembro de 2007, a população brasileira voltou a exercitar a democracia direta por meio do Plebiscito Popular A Vale é Nossa, em que 94,5% dos cerca de 3,7 milhões de brasileiros e brasileiras que foram às urnas defenderam a reestatização da Companhia Vale do Rio Doce.

Repetindo as positivas experiências de 2000 e 2002, a votação do Plebiscito de 2007 foi encerrada no dia do Grito dos/as Excluídos/as, que em sua 13ª edição teve o tema “Isto não Vale: queremos participação no destino da Nação”, fomentando debates sobre os aspectos que contribuíam e os que prejudicavam a construção de um projeto popular de Brasil.

Já após a virada da primeira década do novo milênio, a 5ª Semana Social Brasileira, entre 2011 e 2013, pautou a necessidade de fortalecimento da democracia participativa e direta, chamando todos e todas, a partir do tema “O Estado que temos e o Estado que queremos”, a construir, de forma coletiva, uma sociedade do bem viver, amparada nos fundamentos da solidariedade, da fraternidade e da sustentabilidade.

No último ano da 5ª SSB, e como parte daquela iniciativa, a 19ª edição do Grito dos/as Excluídos/as, que teve o tema “Juventude que ousa lutar constrói o poder popular”, denunciou os problemas enfrentados pelas juventudes brasileiras, em especial as que viviam nas periferias urbanas e rurais, e ao mesmo tempo anunciou que um novo país passava fundamentalmente pelo protagonismo desses/as jovens.

Naquele 7 de setembro de 2013, na Basílica de Aparecida, em São Paulo, o Grito se juntou à 26ª Romaria dos/as Trabalhadores/as que, sob o lema “Mãe Aparecida, ajude a libertar a juventude esquecida”, reuniu mais de 120 pessoas.

2020 e depois…

É com a inspiração de toda história diversa e plural que teve início, este ano, a 6ª Semana Social Brasileira, articulação promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que se estenderá até 2022, com o tema “Mutirão pela Vida: por Terra, Teto e Trabalho”, direitos fundamentais, mas ainda negados à maioria da população. Os três “Ts” do tema são uma referência ao dito pelo Papa Francisco, em 2014, durante o 1º Encontro Mundial de Diálogo com os Movimentos Populares: nenhuma família sem teto; nenhum camponês sem terra; nenhum trabalhador sem direitos.

Num momento em que representantes públicos e empresas naturalizam milhares de mortes pela Covid-19 e pela necropolítica do governo federal, a 26ª edição do Grito dos/as Excluídos/as, realizada no último 7 de setembro, afirmou-se como um ato de resistência ao enfatizar “Vida em primeiro lugar”, denunciando a morte enquanto projeto de Estado.

Vale ressaltar que, em respeito ao necessário distanciamento físico como medida de proteção da saúde e das vidas, o Grito ocorreu tanto virtual quanto presencialmente, neste último caso garantindo-se todos os protocolos e recomendações das autoridades públicas de saúde.

Lançada em julho deste ano, entre o início da 6ª SSB e o 26º Grito, a Campanha A Vida acima da Dívida é a mais recente ação em nível regional de luta pelo não pagamento, anulação e reparação das dívidas financeiras dos países da América Latina e do Caribe.

Coordenada pelo Jubileu Sul/Américas e articulada no Brasil pela Rede Jubileu Sul, a campanha reúne uma multiplicidade de movimentos populares, pastorais sociais, organizações e coletivos de direitos humanos.

Com diversas iniciativas em curso por todo o Brasil e outros países latinoamericanos e caribenhos, por meio de ações de educação popular, mobilização social, incidência e articulação política, o propósito é “evidenciar o impacto destrutivo do acúmulo e pagamento de dívidas públicas ilegítimas na vida de nossos povos e da natureza”, conforme consta no documento político da campanha.

 

Fuente: Jubileu Sul Brasil

Luta pelo direito à vida das mulheres marca Semana de Ação Global

Atuação conjunta entre Rede Jubileu Sul e Coletivo Dandara fez parte da Semana de Ação Global Contra a Dívida e as Instituições Financeiras Internacionais (IFIs)

Exposição “16 Penhas” em José dos Campos. Foto: Centro Dandara de Promotoras Legais Populares.

 

Reivindicando a anulação, cancelamento e o não pagamento das dívidas e com uma série de atividades programadas, a Semana de Ação Global, que ocorreu do dia 10 ao 17 de outubro, foi uma resposta às deliberações do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, organizações que estiveram reunidas no mesmo período.

A programação colocou em destaque os povos e a natureza, em busca de marcar a presença e torná-los protagonistas e principais vozes de seus territórios. Entre as atividades, foi realizada a ação conjunta da Rede Jubileu Sul Brasil com o Centro Dandara de Promotoras Legais Populares, de São José dos Campos, que construiu uma série de eventos em prol da defesa à vida das mulheres.

O Centro Dandara abordou o tema da dívida e suas consequências para as mulheres. Em São José dos Campos, foi realizada oficina de caracterização da “Exposição 16 Penhas: Controle Social | Pela Vida das Mulheres!”, na Praça Afonso Pena, antiga Câmara Municipal, em parceria com o Instituto Lélia Gonzalez e Coletivo de Juristas Feministas.

Essas oficinas de caracterização já eram parte das ações do Centro Dandara desde 2008. Consistem em 16 corpos mulheres talhados em madeira, feitos a partir de uma vivência na Casa Ângela (São Paulo) por um grupo de Promotoras Legais Populares – PLPs.

O nome é uma homenagem à luta de Maria da Penha Fernandes, e o total de 16 peças é alusiva à Campanha 16 + 5 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres, realizada desde 2003 no Brasil e em mais de 153 países, sempre entre os dias 20 de novembro a 10 de dezembro, da qual o Centro Dandara e outras instituições brasileiras foram responsáveis, em 2006, tendo como principais protagonistas da campanha as Promotoras Legais Populares de São José dos Campos. O nome da intervenção “Controle social | Pela Vida das Mulheres!” é também o tema adotado pelo Centro Dandara para o desenvolvimento de ações ao longo de todo este ano.

Devido à pandemia, o máximo de cuidado e prevenção foram tomados pelas organizadoras, com agendamento de horários e limite na participação simultânea de ativistas.

Parceria pelos direitos das mulheres

Segundo Marcela de Andrade, representante da Centro Dandara, essa foi apenas entre as várias ações realizações em conjunto com a Rede:

“Estamos em parceria já faz tempo, mas nossa atuação no projeto se dá via ‘Nós mulheres, na luta por direitos| Rota Crítica das Mulheres em Situação de Violência em São José dos Campos’ e estamos trabalhado o ‘Projeto PLP 20 anos| São José dos Campos’, assim como a realização do ‘Fórum Municipal dos Direitos da Mulher | Direitos Sexuais e Reprodutivos’”, completa.

A ativista lembra que a pandemia alterou todos os projetos do Centro Dandara, motivando o coletivo a incluir o Projeto Promotoras Legais Populares 20 anos que estavam programados na proposta do projeto, em outra dinâmica, ainda mais complexa com a necessidade do distanciamento social. “Nós já tínhamos uma ação com o tema, mulheres e suas reproduções sociais em tempos de pandemia. Aproveitamos esse tema para trabalhar a atividade agora já dentro do projeto da Ação de Fortalecimento”.

Marcela ainda destacou o trabalho conjunto com o Instituto Lélia Gonzalez e com o Coletivo de Juristas Feministas, “Nós aqui do Centro Dandara trabalhamos muito juntando outros coletivos, porque sozinho não se consegue nada”, ressalta.

Para ela, o incentivo da Ajuda a Terceiros, pelo Jubileu Sul Brasil, fez com que os coletivos pudessem demonstrar todos o seu potencial de mobilização. “Trabalhar com um projeto com essa ajuda financeira nos diz o quanto conseguimos fazer, realizar, e que só precisamos de um pouco de ajuda para a seguir em frente em nossa luta. Há muita capacidade de produzirmos material, porque temos muito conteúdo, muita história, muita vivência diante das muitas situações para articular política para as mulheres. Hoje temos um material que é muito elogiado, apesar de ser muito pesado, de ser triste de assistir”, completa.

Ambas organizações consideram a mulher negra como a parte da população mais prejudicada pela atuação dos bancos internacionais e criticam a cobrança de uma dívida que não deve ser reconhecida como nossa, como explica Rosa Miranda, do Instituto Lélia Gonzalez.

Uma das responsáveis pela organização da “Exposição 16 Penhas”, Rosa avalia que “o resultado da dívida externa brasileira impacta diretamente na vida da população mais pobre e preta. As mulheres negras são as mais afetadas, pois estão diretamente marcadas pelas situações de vulnerabilidade, são as mais atingidas pelo machismo e pela violência doméstica, além de serem afetadas pelos menores salários”.

Ela ainda retoma a discussão da má distribuição na carga de impostos na sociedade brasileira. “As mulheres negras representam mais de 55,4 milhões da população brasileira, que segue em luta por direitos básicos como saúde, educação, moradia, trabalho, cultura e lazer. As mulheres negras são as que mais pagam impostos de forma proporcional. Não estamos na base social apenas como força de trabalho e maioria da população, somos as que pagam mais tributos e, assim, sustentamos esta república”, finaliza.  

 

Fuente: Jubileu Sul Brasil

 

Da chegada de Colombo ao século 21: dívidas com os povos originários e tradicionais das Américas apenas se acumulam

“Lembraremos que em 1500 a população do globo deve ser da ordem de 400 milhões, dos quais 80 milhões habitam as Américas. (…) Se a palavra genocídio foi alguma vez aplicada com precisão a um caso, então é esse. É um recorde, parece-me, não somente em termos relativos (uma destruição da ordem de 90% ou mais), mas também absolutos, já que estamos falando de uma diminuição da população [nativa] estimada em 70 milhões de seres humanos. Nenhum dos grandes massacres do século XX pode comparar-se a esta hecatombe”.

As palavras do filósofo e linguista búlgaro Tzvetan Todorov, presentes em sua obra A conquista da América – a questão do outro, publicada pela primeira vez em 1983, são fundamentais para uma compreensão sobre a chegada de Cristóvão Colombo e das caravelas Santa Maria, Pinta e Niña em solo americano.

Os brasileiros Marcelo Grondin e Moema Viezzer também qualificam o início da presença europeia na América como “o maior genocídio da história da humanidade”, sendo esse o título que deram a um livro publicado em 2018.

Baseando-se em registros históricos, os autores afirmam que apenas na área que atualmente forma o México foram cerca de 20 milhões de assassinatos; quase 18 milhões no que hoje conhecemos como Estados Unidos; mais de dez milhões na região dos Andes; e aproximadamente quatro milhões no território brasileiro.

Exatos 528 anos depois do fato ocorrido em 12 de outubro de 1492, as Américas seguem como um terreno de extermínio de povos originários e comunidades tradicionais. Para Marli Aguiar, articuladora local da Rede Jubileu Sul Brasil, trata-se de um projeto de colônia “pensado para durar ao longo dos anos sobre os corpos negros e indígenas, sobre os corpos diferentes. E o genocídio ainda não terminou, continua”.

Dado o grau de racismo que persiste no Brasil, afirma Marli, se mantém essa diferença colonial “de achar que o negro é diferente, que índio não é gente, que não somos capazes e que não podemos assumir nenhum outro espaço que não seja de trabalhos precários, que não dignifica, que é o trabalho que a branquitude não quer fazer. É a ideia de colônia, de servir a Casa Grande, haja vista o trabalho doméstico, os trabalhos de limpeza, as diaristas”.

Durante a pandemia, ressalta a articuladora, foram estes os corpos obrigados a trabalhar para atender à classe média branca “que vive ainda sobre o conceito da colônia, esse projeto genocida de expansão da Europa, mas de expansão destruindo a cultura do outro, a vida, a religiosidade, o corpo do outro”.

Além do genocídio dos povos que já habitavam as Américas, a presença colonizadora foi marcada também pela exploração e saque de recursos naturais. No clássico As veias abertas da América Latina, Eduardo Galeano denunciou que, entre 1503 e 1660, desembarcaram no porto de Sevilha 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, o que segundo ele, foi fundamental para o desenvolvimento da Europa.

“A prata levada para a Espanha em pouco mais de um século e meio excedia três vezes o total das reservas europeias. E essas cifras não incluem o contrabando. Os metais arrebatados aos novos domínios coloniais estimularam o desenvolvimento europeu e até se pode dizer que o tornaram possível. Nem sequer os efeitos da conquista dos tesouros persas que Alexandre Magno derramou sobre o mundo helênico poderiam ser comparados com a magnitude dessa formidável contribuição da América para o progresso alheio”, escreveu o autor uruguaio.

Por isso, Marli completa que “hoje a Europa vive bem porque roubou e pilhou na África, nas Américas, na Ásia. Toda a riqueza europeia é à custa das populações negras, indígenas e o que eles denominaram países de terceiro mundo”.

Manter o pagamento da dívida pública é reafirmar a exploração

Uma das marcas dessa realidade de explorações se dá, por exemplo, na questão da dívida pública.

A respeito disso, organizações da sociedade civil que articulam a Semana de Ação Global Contra a Dívida e as Instituições Financeiras Internacionais (IFIs), iniciada no último dia 10 e em curso até o próximo dia 17 de outubro (confira a programação de atividades), assinalam que anualmente o Sul Global – com a América Latina e o Caribe responsáveis por parte expressiva – gasta mais de 300 bilhões de dólares para pagamentos da Dívida Pública a órgãos multilaterais e grandes empresas, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.

Entendendo a questão da dívida pública como uma verdadeira estratégia de armadilha de dependência, um conjunto de entidades – dentre as quais a Rede Jubileu Sul Brasil – defendem a anulação do pagamento da dívida e a destinação desses recursos para o investimento em políticas públicas e sociais de reparação das dívidas históricas com as comunidades e grupos mais afetados.

“As condições políticas associadas aos empréstimos, incluindo cortes nos serviços públicos e proteção social, privatização e programas severos de austeridade, também causaram tanto, se não mais, danos do que o serviço da dívida, especialmente às mulheres e meninas, aos povos indígenas e aos indivíduos e comunidades mais empobrecidos e vulneráveis. Estas condições exacerbaram os conflitos sociais, a criminalização da pobreza, a militarização e a repressão”, denunciam as entidades, em documento público direcionado a governos e instituições financeiras.

Ricos cada vez mais ricos, pobres cada vez mais pobres

Territórios marcados por profundas desigualdades, que têm relação direta com os processos de colonização e escravização iniciados a partir da presença de Colombo e confirmados ao longo dos séculos, a América Latina e o Caribe veem, mesmo durante a pandemia, a exacerbação dos abismos sociais.

O recente estudo “Quem paga a conta? Taxar a riqueza para enfrentar a crise da Covid na América Latina e Caribe”, publicado pela Oxfam, é emblemático ao revelar que, entre março e junho deste ano, 73 bilionários dos países da região aumentaram as suas fortunas em mais de 48 bilhões de dólares, conforme o relatório. Apenas no Brasil, os 42 bilionários do país tiveram um crescimento das suas riquezas em 34 bilhões de dólares.

Se para alguns poucos as Américas seguem sendo um paraíso, assim como foi para Colombo, para a maioria da população, por outro lado, a realidade segue perversa. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a América Latina e o Caribe enfrentam uma crise econômica e social sem precedentes, que tem como um dos reflexos o recorde de 41 milhões de pessoas desempregadas.

Além disso, a OIT destaca que, das 292 milhões de pessoas empregadas na região, 54% estão na informalidade, em condições precárias e sofrendo perdas consideráveis nas suas rendas, provocando agravamento da pobreza e da fome em diversos países. Apenas no Brasil são, atualmente, 10,3 milhões de pessoas sem acesso regular à alimentação adequada, conforme apontado pelo IBGE.

Não bastasse serem as principais vítimas dessas opções históricas de séculos, os povos da América Latina e do Caribe têm ainda que resistir ao pensamento/prática que, ao modo colonizador de 1492, os veem como obstáculo. Exemplos brasileiros não faltam: o presidente da República que afirmou que quilombolas eram pesados em arrobas e que “não teria um centímetro de terra demarcado para reserva indígena ou quilombola”; o ex-ministro da educação que disse odiar povos indígenas; o presidente da Fundação Palmares que declarou que “a escravidão foi benéfica para os descendentes”.

Todos esses fatos não deixam dúvidas que, mais de cinco séculos depois da chegada das naus europeias à ilha de Guanahani, as Américas seguem com o desafio de não precisar de “ridículos tiranos” que exercem “seus podres poderes”, como nos lembra Caetano Veloso.

Fuente: Jubileu Sul Brasil

Brasil. Impacto del imperialismo en la agricultura familiar y campesina // Anuncian jornadas de denuncia

Por Solange Engelmann. Resumen Latinoamericano, 30 de septiembre de 2020.

Movimiento Sin Tierra y Alba Brasil anuncian jornadas internacionalistas antiimperialistas entre el 5 y el 10 de octubre

A lo largo de los siglos, varios pueblos han enfrentado el dominio de su cultura, el robo de los recursos naturales, el exterminio de los pueblos indígenas, la esclavitud de los negros y la invasión de territorios por países imperialistas.

Pero, ¿por qué la dominación imperialista continúa en el siglo XXI? ¿Cuál es la relación entre el imperialismo y el aumento de los precios de los alimentos y la soberanía alimentaria en Brasil?

Ante el actual escenario pandémico y el reciente, casi total, veto del gobierno de Bolsonaro a la Ley Assis Carvalho – PL735, para incentivar la Agricultura Familiar y Campesina, en Brasil se encuentra en marcha el boicot del actual gobierno a la Agricultura Familiar y Campesina.

Para la integrante del Colectivo MST de Relaciones Internacionales (CRI), Cássia Bechara, la política de Bolsonaro es parte de una estrategia de alineación con las empresas transnacionales y sumisión a los países imperialistas. Lo que amenaza la soberanía alimentaria del pueblo brasileño.

“Una agricultura campesina fuerte significa mayor soberanía alimentaria, con un país menos dependiente del mercado exterior. El gobierno de Bolsonaro pone en riesgo la soberanía alimentaria brasileña para privilegiar los intereses de las empresas extranjeras, por eso volvemos al mapa del hambre. Son más de diez millones de brasileños que hoy viven en situación de inseguridad alimentaria ”, denuncia.

Con Bolsonaro Brasil vuelve al mapa del hambre. Foto: Archivo / Agência Brasil

Al mismo tiempo, el país vive con la devaluación de la moneda del real frente al dólar y el gobierno prioriza y asigna altas inversiones en el modelo agroindustrial, que no produce alimentos.

“Con el dólar más alto, las empresas ganan más vendiendo en dólares al mercado exterior. La agroindustria no tiene interés en producir alimentos, su interés es generar ganancias, por lo que hace todo lo que genera más ganancias. Al exportar más, en consecuencia, habrá menos suministro de alimentos en el mercado interno. Con esto, las empresas comienzan a especular más sobre los precios, lo que significa un aumento en el precio de los alimentos para los brasileños ”, señala Cássia.

Bechara también sostiene que el concepto de imperialismo surge para designar la estrategia geopolítica de dominación desde el paso del siglo XIX al XX. “Es una fase avanzada del desarrollo capitalista, que articula las necesidades del capitalismo para desarrollarse y las políticas del Estado, que garantizan estas necesidades. Es decir, es una política de Estado basada en las relaciones económicas ”, explica.

En este contexto, el imperialismo se desarrolló en la historia, como una de las fases del capitalismo, a partir de 1880, con el surgimiento del capital financiero, en el que los bancos comenzaron a invertir en la industria e iniciaron un proceso de fusión de capital bancario con capital. creando así capital financiero.

En la resistencia y creación de alternativas frente al dominio del imperialismo, el MST, junto con las organizaciones de Alba Brasil, están organizando una serie de acciones y actividades que denuncian las diversas agresiones del imperialismo en el mundo. Las actividades forman parte del Día Internacional Antiimperialista, y se llevarán a cabo entre 5 al 10 de octubre.

“Estamos organizando acciones nacionales y estatales, como el Lanzamiento Internacional del Manifiesto Antiimperialista. Preparando seminarios para discutir el tema, acciones solidarias de donación de alimentos, donación de sangre y plantación de árboles en los territorios de la Reforma Agraria, acto político, actividades culturales y agitación en las redes ”, informa Cássia.

Fuente: MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)

 

#ForaPompeu – Jubileu Sul se posiciona contra ações imperialistas contra Venezuela e a soberania de seu povo

O secretário de Estado do governo de Donald Trump e ex-diretor da CIA (Agência Central de Inteligência estadunidense), Mike Pompeo visita nesta sexta-feira, 18 de setembro, Boa Vista, capital de Roraima, cidade que é o principal acesso de imigrantes venezuelanos ao Brasil.

Essa visita, que segundo o governo estadunidense faz parte de uma agenda oficial na região amazônica, é na verdade uma evidente tentativa de intervenção imperialista dos Estados Unidos contra o governo legítimo e democrático de Nicolás Maduro na Venezuela.

Durante a visita Pompeu se encontra com o ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro, Ernesto Araújo. Uma nota publicada pelo Itamaraty no dia de ontem, 17 de setembro, nomeia o governo de Maduro como “ditadura” e se posiciona contra o processo eleitoral marcado para o próximo dia 6 na Venezuela.

Os Estados Unidos opera essa mesma articulação com o atual governo de Iván Duque na Colômbia, que também declaradamente hostiliza e intenta contra o governo da Venezuela.

Essas ações coordenadas demostram mais uma vez o conluio para armar um golpe contra a soberania do povo venezuelano e ao governo legítimo de Nicolás Maduro, assim como a tentativa frustrada no ano de 2002 contra o então presidente  Hugo Chávez.

A Rede Jubileu Sul se coloca em apoio ao povo venezuelano e seu governo que vem sistematicamente sendo atacado nas histórias ações imperialista dos Estados Unidos contra os países do Sul.

Fazemos um chamado de paz e pedimos que os povos e os estadistas da nossa região digam não à guerra!

Seguimos juntos!

#ForaPompeu #ForaBolsonaroeMourao #BolsonaroGenocida #NãoAoIperialismo

Fuente: Jubileu Sul Brasil

Brasil: Grito de los Excluidos reinventado en pandemia mezcla actos virtuales y presenciales

De norte a sur de Brasil, la tradicional protesta se adaptó en 2020 para proteger al pueblo de la covid-19

Cristiane Sampaio

Traducción: Pilar Troya

Brasil de Fato | Fortaleza (Ceará) | 08 de Setembro de 2020 às 16:18

En Fortaleza, militantes hicieron un acto simbólico y destacaron preocupación por los más de 126 mil fallecimientos por la covid-19 en Brasil – Aline oliveira/MST

Brasil cerró el 7 de septiembre, el día que se celebra su Independencia, con múltiples actos en alusión al Grito de los Excluidos, con manifestaciones en diferentes localidades y regiones. Ante la pandemia y la necesidad de garantizar el aislamiento social, la tradicional movilización debió reinventarse en este 2020, con una amplia oferta de actos virtuales por el país, además de las protestas presenciales. Fortaleza (estado de Ceará), Brasilia (DF) y extremo oeste de Santa Catarina, por ejemplo, están entre los puntos donde los militantes fueron a las calles para recordar la fecha.

En Fortaleza, capital de Ceará [región noreste de Brasil] un grupo de militantes realizó un acto simbólico y resaltó la preocupación por los más de 126 mil fallecimientos por la covid-19 en Brasil, además de la lucha de los trabajadores por derechos e igualdad social.    

Los manifestantes que fueron a la calle en la capital federal optaron por un perfomance para recordar la violencia contra las mujeres, la comunidad LGBTQIA+, los negros e indígenas, entre otros grupos.   

La capital federal fue escenario de un acto simbólico para recordar a los excluidos / Ana Moraes/MST

El Grito de los Excluidos surgió en 1994, por iniciativa de la Confederación Nacional de los Obispos de Brasil (CNBB). La entidad utiliza la fecha para hacer un contrapunto al llamado “Grito de la Independencia” y recordar la importancia de la garantía de derechos, especialmente los de la población más vulnerable, como trabajadores, mujeres, negros, campesinos, entre otros.  Este año, la movilización hizo su 26ª edición y trajo el tema “La vida en primer lugar” y el lema “Este sistema no vale: luchamos por justicia, derechos y libertad

Crítica al veto que redujo beneficios de la Ley Nº 14.048/2020 para agricultores fue recordada, por ejemplo, en protesta virtual organizada por la Central Única de Trabajadores / Pricila Baade

En la misma línea de las últimas decisiones tomadas por el gobierno, militantes de todo el país destacaron, por ejemplo, el veto del presidente Jair Bolsonaro (sin partido) al proyecto que originó la Ley Nº 14.048/2020, que traería un conjunto de beneficios a campesinos, pero parte de su contenido fue retirado por el presidente.  El texto aprobado por el Congreso Nacional había resultado de una serie de 25 propuestas legislativas evaluadas por deputados y senadores, por eso trabajadores engrosaron el coro por la recuperación de los trechos vetados, lo que será evaluado por el Congreso.

Las movilizaciones también incluyeron acciones de solidaridad en diversos pontos del país. En la ciudad de Campina Grande, en Paraíba,  por ejemplo, la Brigada María Carolina de Jesús distribuyó 50 cestas donadas por medio de una asociación, además de 80 mascarillas y sachet de alcohol que fueron donados por la Universidad Estadual de Paraíba (UEPB).  

En Campina Grande hubo donación de cestas, máscaras y saches de alcohol / Divulgação

En Gobernador Valadares, Minas Gerais, militantes del Movimiento de Mujeres Campesinas (MMC) y del Movimiento de Pequeños Agricultores (MPA) salieron de la zona rural a la ciudad y donaron alimentos a la población.

Mujeres del estado de Minas Gerais que viven en el campo fueron a las calles para donar productos para trabajadores de las ciudades / MMC

En Belo Horizonte, un conjunto de organizaciones, pastorales, partidos y movimientos sociales del Frente Brasil Popular (FBP) se reunió en la Plaza de la Estación para gritar “Fuera, Bolsonaro” y “Fuera, Zema”. La referencia, en este ultimo caso, es al gobernador de Minas Gerais, Romeu Zema (Partido Novo), que viene profundizando la agenda neoliberal en el estado.

Plaza de la Estación en Belo Horizonte/ Divulgação /

Voces internacionales también se hicieron eco de los gritos de las protestas registradas en el país. Vía Twitter, el canciller Venezuela, Jorge Arreaza, felicitó al pueblo brasileño por las jornadas y evocó los derechos a tierra, techo, trabajo y democracia. “Desde Venezuela expresamos nuestro compromiso contra la exclusión, con la paz y la unidad soberana de nuestros pueblos”, añadió.

Edición: Rodrigo Durão Coelho

Fuente: Brasil de Fato