A cria da Maré que enfrentou os poderosos do Rio – Dossiê sobre Marielle Franco

Arredores da praça Floriano Peixoto, Cinelândia, centro do Rio de Janeiro. Nesse endereço está localizado o Palácio Pedro Ernesto, sede da Câmara Municipal da capital fluminense.

Dentro daquele prédio, em 8 de março de 2018, ouvia-se: “as rosas da resistência nascem do asfalto. Nós recebemos rosas, mas também estaremos com os punhos cerrados, falando do nosso lugar de vida e resistência contra os mandos e desmandos que afetam nossas vidas. Até porque não é uma questão do momento atual”.

Da galeria, num tom de voz elevado, um homem que acompanhava a sessão legislativa manifestava afirmações em defesa da Ditadura Militar, como forma de atrapalhar o discurso feito naquele momento. Em resposta, a oradora foi enfática: “não serei interrompida, não aturo interrupção dos vereadores desta Casa, não aturarei de um cidadão que vem aqui e não sabe ouvir a posição de uma mulher eleita”.

Seis dias depois, na rua Joaquim Palhares, também região central do Rio, há menos de 10 km do Palácio Pedro Ernesto, quatro balas atingiam a cabeça da autora daquele discurso. Assim, na noite daquela quarta-feira, 14 de março de 2018, Marielle Francisco da Silva, conhecida por Marielle Franco, era interrompida.

Mas se os tiros que tiraram a sua vida e do seu motorista, Anderson Gomes, a interromperam, não foram suficientes para silenciá-la. Marielle virou semente crioula que, enfrentando a dureza das estruturas racistas e patriarcais, se multiplica em sementes ainda mais resistentes, diversas e coloridas.

Uma dessas sementes é Mônica Benício, arquiteta, pesquisadora de temas relacionados ao Direito à Cidade, eleita vereadora do Rio de Janeiro no pleito de 2020, também pelo PSOL, sendo a terceira mulher com mais votos.

Viúva de Marielle, Mônica dissemina o legado da ex-esposa na sua ação cotidiana. “Marielle é um símbolo de representatividade, resistência, de luta para as mulheres, sobretudo as mulheres negras, de uma luta antirracista, contra a LGBTfobia. Eu rodei o mundo inteiro cobrando Justiça das autoridades, para que respondam quem os mandou matar, e para que levam a julgamento os executores. É uma luta muito dura, dolorosa, porque é diariamente reviver e relembrar a tragédia que atravessou as nossas vidas. Sem dúvida nenhuma isso foi uma coisa que me colocou em outro lugar politicamente, e a decisão de vir candidata veio com muita escuta dessas pessoas que acreditavam que o projeto pode melhorar o Rio de Janeiro, que o mandato pode voltar a dar esperança para as pessoas nessa cidade”, declarou em entrevista à Carta Capital.

Cria da Maré

Complexo da Maré, maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro e um dos maiores centros populacionais do país, formado por 16 comunidades, numa extensão de 800 mil metros quadrados, em que vivem cerca de 140 mil pessoas

“Olhando os dados do Censo, é alarmante como um espaço pode ser tão negligenciado pelo Estado, e não só pela Política de Segurança. O desconhecimento que muitos moradores têm sobre quais são seus direitos também é preocupante, muitos acham que não podem reclamar de coisas – como moradia e saneamento básico – por morar na favela”.

O depoimento de Joelma de Souza sobre o levantamento censitário feito pela organização Redes da Maré é emblemático de como aquele território escancara a perversidade do Estado orientado na lógica do favorecimento de concentração de riqueza e produção de vulnerabilidades em larga escala.

Os indicadores sobre educação sustentam a denúncia de Joelma: a taxa de analfabetismo dos moradores da Maré é de 6%, mais que o dobro da cidade (2,8%); 37,6% da população mareense completou apenas o Ensino Fundamental; quase 20% dos adolescentes entre 15 e 17 anos estão fora da escola. Apenas 2,4% chegaram ao Ensino Superior.

Na difícil batalha entre a importância de estudar e a necessidade de trabalhar cada vez mais cedo para contribuir na renda da família, Marielle Franco foi uma dessas poucas cidadãs da Maré que conseguiram cursar uma faculdade.

Do pré-vestibular comunitário, Marielle foi aprovada na graduação em Ciências Sociais na PUC Rio. Com bolsa integral do início ao fim do curso, Marielle e outra colega eram as únicas mulheres negras do departamento.

Anos depois, a seleção e conclusão do mestrado em Administração Pública na Universidade Federal Fluminense, com a dissertação que apenas o título – UPP: a redução da favela a três letras” – era uma demonstração do seu compromisso com a vida e a dignidade das mulheres, homens, meninas e meninos que resistem nas favelas cariocas.

A própria vida como inspiração

Antes de ingressar na PUC, Marielle se tornou mãe aos 19 anos. Esse é outro fato que revela como Marielle era uma expressão real do local em que nasceu e foi criada: 56% das mulheres com até 29 anos do Complexo da Maré são mães. E como a própria Marielle disse: “ser mãe na favela não é fácil”.

Se viva estivesse, Marielle sentiria orgulho de Luyara Santos, sua única filha, estudante na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que leva as ideias e mensagens da mãe para todas as partes do mundo através do Instituto Marielle Franco, uma “organização sem fins lucrativos, criada pela família de Marielle, com a missão de inspirar, conectar e potencializar mulheres negras, LGBTQIA+ e periféricas a seguirem movendo as estruturas da sociedade por um mundo mais justo e igualitário”, conforme consta no site oficial.

A maternidade ainda jovem, para Marielle, foi um impulso para a sua luta em defesa das mulheres negras e demais segmentos em situação de vulnerabilidade socioeconômica. “Isso me ajudou a me constituir como lutadora pelos direitos das mulheres e debater esse tema nas favelas”, escreveu certa vez no site do seu mandato.

Além da maternidade, a própria existência enquanto mulher, negra, bissexual, socialista e de favela contribuiu para a definição da trajetória de Marielle. Também ainda na juventude, Marielle teve uma amiga da Maré morta por uma das incontáveis balas perdidas que atingem as “peles alvo”, como canta Emicida, no Rio de Janeiro.

Uma voz contra os poderosos do Rio

Essa trajetória alcançou um patamar mais expressivo quando Marielle decidiu disputar as eleições municipais de 2016. Em depoimento à BBC Brasil, o vereador Tarcizio Motta, ex-colega de Marielle na Câmara do Rio, disse que “Ela se lançou candidata em 2016 motivada pela necessidade de que as mulheres estejam na política, pela necessidade de combater o racismo, para mostrar que uma mulher negra e favelada pode e deve ocupar os espaços de poder”.

Pois foi o chão de onde veio e a sua própria história de vida que guiaram a (curta) atuação parlamentar de Marielle. Para além dos 16 projetos de lei que apresentou em apenas 13 meses de mandato, quase todos com foco em políticas públicas para mulheres, população negra e LGBTQIA+, Marielle incomodava os poderosos.

No período do assassinato da vereadora do PSOL, o Rio de Janeiro, que atravessava uma escalada de violência, estava sob intervenção federal na área da Segurança Pública, algo que Marielle acompanhava de perto, já que assumiu, no final de fevereiro, a relatoria da comissão criada na Câmara do Rio para monitorar a intervenção.

Uma das formas de Marielle expressar a sua defesa dos direitos humanos e denunciar os abusos do Estado era através das redes sociais.

Na semana antes de ser assassinada, compartilhou que policiais do 41º Batalhão da Polícia Militar, no Irajá, teriam agido com truculência na comunidade de Acari, “aterrorizando e violentando moradores”. Na mesma publicação ela disse que “o que está acontecendo agora em Acari acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior”.

Dias depois, na véspera do crime que tirou a sua vida, Marielle protestou contra a morte de mais um jovem na cidade. “Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja”. Na postagem, a vereadora questionou: “quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”.

Um dia depois, era a própria Marielle que morria. Em entrevista ao Fantástico, da TV Globo, Antônio Franco, pai, demonstrou não ter dúvidas sobre a motivação do crime: “só tinha uma maneira de calar a minha filha: é o que eles fizeram com ela. Porque se eles não matassem, ela ia alçar voos mais altos. Ela ia chegar muito mais longe”.

Logo após o assassinato de Marielle, as redes sociais de Norte a Sul do país foram inundadas com conteúdos mentirosos que atentavam contra a biografia da vereadora. A título de exemplo, uma pesquisa feita pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, da USP (Universidade de São Paulo), com respostas de 2.520 pessoas a um questionário online mostrou que 1.145 pessoas disseram ter recebido variações de textos dizendo que Marielle era ex-mulher do traficante Marcinho VP e que havia engravidado dele aos 16 anos, ou, em menor quantidade, uma foto que supostamente mostrava Marielle sentada no colo de Marcinho VP (não eram ela nem ele na imagem).

Emblemática neste sentido foi a mensagem postada por Marília Castro Neves, desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro: “a questão é que a tal Marielle não era apenas uma ‘lutadora’, ela estava engajada com bandidos” Foi eleita pelo Comando Vermelho e descumpriu ‘compromissos’ assumidos com seus apoiadores”.

No último dia 03 de março, Marília Castro Neves foi absolvida pelo Superior Tribunal de Justiça da ação penal de calúnia por esse comentário. A decisão escancara que Marielle não teve o “privilégio” de morrer apenas uma vez.

Enquanto isso, prestes a completar três anos do assassinato da cria da maré que virou semente, algumas perguntas seguem necessárias: Quem mandou matar Marielle? Quanto tempo será preciso para que o caso seja completamente solucionado? Quantas pessoas mais serão assassinadas por denunciar os poderosos?

Para saber mais sobre a vida e a história de Marielle Franco

Sementes: Mulheres pretas no poder

Dirigido por Éthel Oliveira e Júlia Mariano, o longa metragem acompanha, escuta e revela quem são algumas das mulheres negras na política brasileira, sobretudo as que conquistaram espaço após o assassinato de Marielle.

Link: www.youtube.com/c/EmbaubaFilmes/vídeos

Respeitem a nossa dor

Minidocumentário que relembra os atos de moradores da comunidade carioca em homenagem a Marielle.

Link: https://www.youtube.com/watch?v=Fd6qz2_zYnE

A Voz de Marielle

Filme que conta parte da trajetória de Marielle Franco, a partir de uma entrevista concedida por ela à pesquisa “Emergência Política na América Latina” do Instituto Update.

Link: http://maranha.com.br/portfolio/a-voz-de-marielle/

UPP: a redução da favela a três letras

Dissertação de Marielle Franco sobre a política de segurança pública no Rio de Janeiro.

Link: https://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UFF-2_cb9b1f2357cfc51dafe5fabead0084f2

Instituto Marielle Franco

Site do Instituto criado pela família de Marielle como forma de manter viva a sua memória e história.

Link: https://www.institutomariellefranco.org/

A Verdade sobre Marielle Franco

Site que reúne algumas das ações de Marielle quando vereadora e desmente conteúdos falsos que circulam pelas redes sociais a seu respeito

Link: https://www.mariellefranco.com.br/averdade

WikiFavelas

Página colaborativa que reúne informações sobre a vida de Marielle Franco, publicadas por organizações de defesa dos direitos humanos

Link: https://wikifavelas.com.br/index.php?title=Marielle_Franco

Fuente: Jubileu Sul Brasil

A propósito de otro Día Internacional de la Mujer

Este 8 de marzo se renueva la lucha de las mujeres en todo el mundo por la no violencia de género y por la igualdad de oportunidades en todos los ámbitos públicos y privados de nuestra vida en sociedad. 

Las mujeres que soportan todo el peso de las injusticias, cada vez dudan menos en ponerse al frente de las denuncias que a diario son cometidas contra sus cuerpos, sus progenitores  y por las pésimas condiciones económicas, laborales y sociales de un capitalismo salvaje y una ideología machista, que les niega  las oportunidades de un futuro de paz con justicia. 
Ella es la primera en la fila, reivindicando oportunidades y castigo a quienes con violencia física y sicologica castran sus sueños. 

Hoy el mundo en general, sufre el impacto de la pandemia de la covid que ha marcado nuestras vidas.  Las mujeres donde quiera que se encuentren están pagando alto el precio por esta nueva situación.

Con la covid, nuestros gobernantes han impulsado políticas que han dejado a miles de mujeres sin empleo, sin oportunidades para ella y sus hijos. Pero lejos de aminalarse, las mujeres de manera increíble, redoblan su espíritu de combate y luchan como fieras por la conservación de su especie y de su descendencia.

La violencia estructural las condena a la injusticia y al sometimiento, pero la convicción de que un mundo mejor es posible en cada una de nuestras latitudes, las renueva en su voluntad de buscar vías alternas para nuevas oportunidades.

La convicción de que la niñez está también desprotegida, que sufre violencia y abuso físico y sicológico por falta de políticas integrales, las lleva al convencimiento que se debe morir en el intento, para acabar con los vejámenes de que son víctimas, no sólo ellas, sino también de quienes de ella dependen.

El camino de lucha está creado y abierto para las mujeres, igual que un día como hoy, lo hicieron en Nueva York. 

Nuestra solidaridad con todas aquellas que sufren y luchan por un mejor futuro para ellas, sus familias y para el resto de la sociedad. 

Por: Celia Sanjur. Socióloga. Centro de Capacitación Social CCS

Fotografía: Olmedo Carrasquilla Aguila. Mujeres Ngäbe en protesta contra el extractivismo del agua para hidroeléctrica Barro Blanco. 2017 Panamá

 

Fuente: Radio Temblor

El Salvador. Movilización feminista ante desaciertos del gobierno

En el marco de la reivindicación de los derechos de las mujeres, diferentes colectivas feministas salieron a las calles para manifestar los desaciertos del Gobierno en turno de Nayib Bukele.

Entre las denuncias emitidas en el comunicado están:

Abusos Medioambientales-Concentración  de poder y retrocesos democráticos-Feminicidios

La invisibilización de los trans feminicidios y violencia  contra personas LGBTI

Crimininalización, penalización del aborto y caso Manuela-Violencia Laboral entre otros.

En la concentración general en la Plaza Cívica frente a Catedral se dio un ataque por parte de la Policía Nacional Civil (PNC) donde agredieron a una mujer Feminista  de seguridad. 

Se enfatizó en la violencia desmedida por parte de militares y agentes policiales, se hace un llamado a la comunidad internacional ante las denuncias emitidas ante este día y los demás procesos que El Salvador está atravesando.

Por: Pamela Alfaro. Radio Temblor Internacional

 

 

Fuente: Radio Temblor